Um pouco da ç:
O alimento vivo é muito antigo. Os humanos coletores comiam vivo antes da descoberta do fogo. Com o advento do fogo e da necessidade de deslocamento os humanos nômades foram mudando a alimentação. Mas somente encontramos registros sobre a importância do alimento cru e fresco em Hipócrates (400 AC), associado às “regras de observação da natureza”. Também registraram os Essênios (AC e DC), povo que viveu no deserto e descobriu como viver em comunhão com a natureza. Aqui, mais explicitamente, a referência às sementes germinadas como fonte de energia.

O conhecimento sobre viver observando as “regras da natureza” manteve-se guardado na tradição oral entre os “naturalistas”, pequenos grupos dentro de diferentes culturas, por centenas de anos.

Na Alemanha eram chamados de Filhos do Sol, por exemplo. No final do século XVIII nova onda de valorização da energia como fonte de alimento e de cura, chegou. Cresceu a homeopatia e começou a se organizar a “Higiene Natural”- conhecimentos práticos sobre como observar as “regras da natureza”, obter saúde e ser seu próprio médico. Lembramos aqui que, antes de existirem os médicos a prática médica era uma arte e remediar era uma prática onde o alimento estava sempre presente. Aliás, a primeira terapia humana registrada se chamou “alimentoterapia”.

Hipócrates, pai da medicina, afirmava que a força da vida tende a saúde, como resposta natural. Basta observar e seguir.Assim o conhecimento sobre a alimentação com vitalidade foi se mantendo sempre vivo, sem grande divulgação durante séculos.No início do século XX, Edmond Székeli, médico, educador, pacifista, linguista entre outras habilidades, divulgou o estilo de vida dos essênios e as bases da Higiene Natural (Higiene Natural ou Higiene Vital é o nome dado a uma corrente de pensamento relacionada à saúde e à vida. Higiene é uma palavra que tem origem em Higéia ou Higiéia, a deusa grega que velava pela saúde de todos).Traduziu o Evangelho Essênio da Paz escrito originalmente em aramaico pelo apóstolo João. Neste livro podemos conhecer a poesia que revela as orientações de Jesus sobre o processo de germinação das sementes e da preparação do pão dos essênios. Propôs viver como os essênios considerando que a “Energia Vital” está presente em tudo que nos cerca e criou o movimento dos novos essênios da paz. Foi ele quem classificou os alimentos segundo a vitalidade:

Biogênicos (que favorecem a regeneração da vida): sementes germinadas e brotos.

Bioativos (ativam a vida, por ainda manterem a vitalidade): frutas, legumes, verduras frescas e cruas.

Bioestáticos (mantém a vida): alimentos cozidos, congelados e refinados.Biocídicos (consomem a vida): alimentos com produtos químicos ou radiações, conservantes e aromatizantes.

Na década de 80 na Califórnia – EUA, Dra Ann Wigmore escreveu vários livros a partir de sua experiência pessoal e pesquisas sobre o assunto. De origem romena, era uma mulher comum, dona de casa que adoeceu gravemente de diversas patologias e resolveu buscar na alimentação sua cura. Buscou informações por anos e teve o mérito de organizar e popularizar esse conhecimento através dos 15 livros que escreveu. Essa obra é hoje referência no “movimento da Alimentação Viva” e quase todos os livros são acompanhados de receitas, um ponto de partida para a experimentação.

Além de se curar, recebeu o título de Dra pelos inúmeros benefícios que prestou durante toda sua vida dedicada a essa divulgação. Fundou institutos de pesquisas, ofereceu palestras, orientações, cursos e clínicas de recuperação. Ela também ensinou a germinar sementes, fez programas de rádio, de TV e popularizou esse tipo de alimento na Califórnia. Deixou muitos seguidores que foram criando suas próprias “escolas” reunindo-se hoje sob o título de mestres do Raw Food e Living Food (Comida Crua e Comida Viva).

A cura pela alimentação por Ann Wigmore: Ela escreveu o livro com o título: Be you your own doctor (Seja você seu próprio medico), convicta de que todos podemos ser médicos de nós mesmos. Para isso, Ann Wigmore propôs a “desintoxicação” permanente, baseada em hábitos de “limpeza”. A adoção da alimentação viva em todas as refeições é uma dessas práticas. E também o consumo de bebidas fermentadas (Rejuvelac), a atividade física regular e a meditação. Dedicou especial atenção à busca do desenvolvimento espiritual.Escreveu uma brochura sob o título “Energia Vital” onde trata do assunto. Seu trabalho foi especialmente dirigido para a cura, especialmente a espiritual, tendo como apoio a alimentação viva. Fundou o Instituto Ann Wigmore, uma clinica para desintoxicação atualmente em atividade em Puerto Rico onde seus sucessores mantêm as práticas preconizadas por ela, mesmo depois de seu falecimento passando os 80 anos.
Proposta culinária de Ann Wigmore: O grande diferencial da obra de Ann Wigmore foi a importância que atribuiu a energia vital dos alimentos. Entendeu que as enzimas digestivas se constituem a manifestação material dessa energia. Assim, enfatizou que as sementes, quando germinadas, produzem grandes quantidades de enzimas digestivas facilitando todo o processo digestivo. E com isso, reduzindo os gastos energéticos do corpo humano no processo.Acentuou a importância dos Sucos e dos Alimentos Fermentados, como fontes especiais de enzimas digestivas. O programa culinário proposto por Ann Wigmore se baseia num conjunto de alimentos, sem passar pelo cozimento ou congelamento, mantendo a energia vital.Consomem-se os vegetais frescos, maduros, orgânicos, sementes germinadas e brotadas, alimentos desidratados e os fermentados. A dieta proposta por ela foi analisada e aprovado pela FDA (Food and drugs administration, órgão que avalia e controla os alimentos e propostas alimentares nos EUA). Segundo os resultados, ultrapassou em mais de 200% as necessidades nutricionais humanas determinadas pela organização.Em seus livros deixa transparecer que considera o ato de comer como uma forma de cuidar do corpo e não se dedicou a pesquisa dos paladares ou da culinária com estética. Consulte a referência de algumas das suas obras no capitulo 10: Biblioteca.

Alimentação Viva no Rio de Janeiro: E finalmente a Alimentação Viva chegou no Rio de Janeiro. A interpretação brasileira da dieta proposta por Ann Wigmore foi sendo adaptada inicialmente pela professora Ana Branco – Dep. de artes e design da PUC – Rio, que tem o mérito de associar a arte com a saúde, através do laboratório de pesquisas do projeto Biochip, oferecendo cursos e palestras divulgando amplamente a vitalidade como conceito alimentar. Posteriormente o Terrapia, um experimento de mobilização popular orientado pelas bases da política de Promoção da Saúde, no Centro de Saúde da ENSP/FIOCRUZ. Uma experiência que acontece numa unidade de atenção básica, ou seja na porta de entrada aos serviços de saúde. Diferente de Ann Wigmore voltada para a cura, o conhecimento sobre a alimentação viva foi aplicado como estímulo a mudanças de hábitos de vida da população em geral.

Contribuições do Terrapia
Além da dieta adaptada a realidade brasileira, com alta diversidade de vegetais na mesa, o Terrapia propôs a observação do ser humano como parte da rede viva e o cuidado com o corpo (ecossistema corporal), como nossa maior contribuição ambiental. Entendemos que a saúde mora junto com a natureza. Quanto mais contato estreito com o ambiente de qualidade, melhor será a captação de energia vital. Assim ficamos empenhados na preservação do AR que respiramos, da ÁGUA que consumimos, do solo de onde vem a comida e dos raios solares (FOGO principal) que recebemos. Estamos conscientes de que a preservação ambiental é determinada por nossas escolhas diárias de consumo, seja vivendo na zona urbana ou rural (ética do consumo). Utilizando os conhecimentos da Higiene Natural, sem uso de fármacos, produtos químicos de limpeza ou de higiene corporal, não eliminamos resíduos tóxicos contaminado o solo e as águas. Indiretamente contribuímos também para a cultura da desmedicalização (o assunto se refere ao grande esforço dos serviços públicos sobre a população super-medicada). E, finalmente, a interferência na cultura alimentar. No Brasil, além de contarmos com uma imensa variedade de vegetais, temos as comidas regionais.
O Terrapia criou a culinária viva brasileira, ou seja, a baiana, a mineira, inventou cores na mesa, incluiu as plantas não cultivadas, a flores e a alegria de uma culinária preparada em grupo. A convivência em grupo é o ponto alto do Terrapia. Como observadores atentos, nos preocupamos em “estar-no-mundo-com-os-outros”, como diz L. Boff, fazendo comida, cantando e trocando experiências. Consideramos que os hábitos alimentares transmitidos pela cultura são hábitos sociais, orientados pelo prazer, isto é, condicionamentos familiares, influenciados pelo ambiente em torno, carregados de afetos, ou da situação econômica etc. É preciso lembrar que a alimentação viva não nos foi transmitida socialmente (família). Ela é o resultado de nossa consciência, da nossa busca ativa. Mas esse novo “produto” não dispensa a “embalagem anterior”. No Terrapia buscamos os paladares e a estética transmitida por nossas famílias e grupos sociais. Por isso nos dedicamos a criar receitas que nos lembrem a comida da família. A panela de barro na mesa, cheiros atraentes e a mesa farta! É a busca pelo paladar afetivo. No LIVRO VIVO nos dedicamos a divulgar essas receitas que consideramos a alavanca inicial para o processo criativo de muitos. Assim podemos hoje afirmar que no Rio de Janeiro nós temos uma Escola Viva, um jeito bem próprio de ensinar e criar receitas vivas!

Fonte: www.terrapia.com.br

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