O SEMINÁRIO SEGUNDO OS PLANTADORES
Qual seria a noção de seminário entre os plantadores? Como chegaram tantas sementes em nossa mesa e com tamanha quantidade? Quem plantou, como e onde? Qual o custo disso para nós, o planeta e a vida social? E hoje, que importância tem a semente para os plantadores?
No contato estreito com os plantadores ecológicos o conhecimento intuitivo, a sensibilidade da observação ainda está presente e as sementes ocupam lugar de destaque! Para os plantadores convencionais hoje em dia, arrisco a afirmar que se trata do espaço onde se fazem sementeiras em série para venda ou replantio.
A história dos agricultores começa há 10000 anos quando cuidavam de certas espécies de plantas que nasciam naturalmente!
Modificavam seu habitat ou facilitavam sua reprodução a partir da observação do crescimento. Nesse tempo, a semente era considerada um patrimônio natural e cultural da grande importância para os plantadores. Desenvolveram habilidades na “domesticação” das plantas e também na forma de dominação da natureza. E, as sementes com “rendimentos” maiores e de crescimento previsível foram sendo selecionadas.Em um determinado momento histórico, o ambiente natural foi perdendo importância para os plantadores. O conhecimento inicial baseado na intuição sobre o manejo das plantas foi gradativamente substituído pela tecnologia. Dirigido por poucos homens, o poder do conhecimento sobre a genética das sementes adquiriu valor de “bem econômico” e, como conseqüência, tornou-se objeto de especulação financeira. A semente virou negócio!Um marco histórico foi o da Revolução Verde nos anos 50 e 60 surgido após a segunda guerra mundial . Deixou como herança uma grande produção de insumos agrícolas. Esses produtos, provenientes da sobra das armas químicas desenvolvidas, foram então usados como herbicidas, pesticidas e outros aplicados a agricultura. Não existe na história humana paralelo a este momento em que se espalhou produtos químicos no solo em todo o planeta, através de um “plano para reduzir a fome mundial”.
Nos dias atuais as sementes interessantes são aquelas que desenvolvem plantas com alto rendimento, aparência atraente, uniformidade genética, resposta rápida a irrigação e ao uso de fertilizantes. Aquelas com facilidade de colheita, processamento e vida mais longa nas lojas de venda. Criou-se o termo “Cultivar”, para designar aquelas sementes trabalhadas geneticamente. Os agrônomos convencionais se referem as sementes como um pacote fechado: “As sementes são produzidas por produtores e empresas especializadas. A semente é um pacote cujo conteúdo são todos os genes que caracterizam a espécie e a cultivar. Se uma determinada cultivar é eleita pela pesquisa e pelo consenso entre produtores, é porque o seu comportamento é o melhor possível para as condições de clima, solo e de tecnologia agrícola da região, e as características de seus produtos, são as mais aceitas.
Conseqüentemente, o patrimônio genético desta cultivar, que basicamente diferencia seu comportamento, tem que ser protegido”. “As cultivares devem apresentar boas respostas a aplicação de insumos modernos, incluindo fertilizantes químicos, inseticidas, herbicidas, fungicidas, reguladores de crescimento e desfolhantes É exigida boa adaptação a colheita mecanizada, devendo as plantas apresentarem a inserção do primeiro ramo frutífero acima de 20 cm do solo; porte ereto, mesmo quando fixarem todo seu potencial produtivo; capulhos bem aderidos as cápsulas e que não caiam mesmo após fortes chuvas e ventos. Devem ser tolerantes aos veranicos prolongados, que ocorrem normalmente nos cerrados de Goiás, Bahia, Maranhão e Piauí; devendo apresentar sistema radicular vigoroso e profundo; possuírem alta capacidade de fixação de capulhos nas plantas, inclusive até nos ponteiros; e suportarem espaçamentos estreitos e altas densidades de plantas/metro linear de sulco” (Carvalho & Nakagawa, 1980).
E eu ainda insisto que as sementes foram criadas pela natureza!

Esse processo alterou a capacidade das sementes de resistir às tensões do ambiente natural como frio, calor, ventos, assim como lidar com a visita dos insetos, modificando seu “sistema imunológico”. Com isso, as sementes cultivadas exigem mais e mais os insumos agrícolas para garantirem o seu desenvolvimento. Como a maior parte das sementes modernas em geral é híbrida, também a planta não possui mais capacidade de reprodução e, portanto não podem ser replantadas, exigindo que os plantadores comprem novas sementes a cada plantio. Desta maneira se estabeleceu a dependência econômica da produção agrícola convencional. Fato interessante ao modo de viver baseado no capital. Muitas sementes perderam status na alimentação humana por conta dos critérios acima. Hoje há uma clara tendência para uma uniformização do cultivo, gerando uma alimentação “global”.
Vejam só: são mais de 4 mil espécies de plantas comestíveis catalogadas pelos botânicos. Em torno de 600 são cultivadas consideradas rentáveis. Nas cidades talvez se conheçam umas 300 que chegam aos pontos e venda. E pensar que ainda fazemos a seleção das que agradam ou não ao paladar. Resultado: empobrecimento de informação!Com isso se deixa de lado a originalidade das plantas e a seleção natural utilizada pela natureza. A harmonia de sua constituição própria para se comunicar na trama viva. Desconsidera-se o corpo vital da planta, dinamizada pelo balanço dos ventos, energizada pelo sol, raios cósmicos das estrelas, da lua, pranificada pelas chuvas e ventos!… Aquelas que passam pelo “ controle de qualidade” da Natureza!!!
A resistência dos plantadores biológicos:
Como um movimento de sensibilidade ou resistência, muitos plantadores insistem em manter ou retornar ao caminho original e recuperar a informação das sementes comestíveis, chamadas de pé duro ou crioulas. Eles estão espalhados por todo lado! A semente para esses plantadores é um patrimônio da natureza e carrega toda a informação da origem do planeta e sua história. A relação com a natureza é de cooperação, no lugar de dominação para as práticas de cultivo. Quanto menos interferência no solo melhor, dizem eles, pois partem do princípio que solo sadio, produz planta sadia e homem sadio. O solo é entendido como um organismo vivo, berço das sementes vivas. E o planeta um grande ser vivo que pulsa formada por todos os seres vivos como uma grande orquestra. Podemos encontrá-los nas feiras agroecológicas . Mas como são poucos ainda, precisamos fortalecer esse processo através de visita e valorização de seus produtos.
A esses plantadores em ecossistemas naturais em franco crescimento, a nossa homenagem!

Fonte: www.terrapia.com.br

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